[ editar artigo]

EVENTO | Coleção Bibliofilia: Edições Sesc e Ateliê Editorial lançam três volumes sobre o amor pelos livros

EVENTO | Coleção Bibliofilia: Edições Sesc e Ateliê Editorial lançam três volumes sobre o amor pelos livros

O que é um livro?, de João Adolfo Hansen; Da argila à nuvem, de Yann Sordet, e A sabedoria do bibliotecário, de Michel Melot, formam uma trilogia dedicada à ciência e arte do livro, da ideia na mente do autor à catalogação nas bibliotecas

 

O livro é um dos mais fascinantes objetos produzidos pelo homem. Mesmo em nossa época atual marcada pelos avanços tecnológicos e novas mídias, o livro permanece sendo um artefato sem igual, e não dá mostras que irá desaparecer. Jovens seguem comprando livros, criando clubes de leitura e falando sobre seus autores e histórias preferidos em podcasts e canais no YouTube.  As bibliotecas reforçam sua vocação de centros comunitários de difusão cultural. As coleções de livros impressos seguem preenchendo prateleiras e os aspectos sensoriais do livro impresso – o cheiro, a sensação do papel ao toque, o conforto visual na leitura das letras impressas no papel – ainda não foram imitadas satisfatoriamente pelos dispositivos digitais. Afinal, o livro não precisa de conexão com a internet ou baterias a serem recarregadas.

 Com os três livros da Coleção Bibliofilia, organizada por Marisa Midori Deaecto e Plínio Martins Filho, a Ateliê Editorial e as Edições Sesc São Paulo se unem para celebrar o prazer da leitura e a importância social, cultural, econômica e simbólica do livro. Apesar das transformações tecnológicas e sociais, que impactam a produção editorial, as formas de transmissão da linguagem escrita e seus mecanismos de recepção, o amor ao livro permanece.
 

O que é um livro?

 No primeiro volume da Coleção Bibliofilia, João Adolfo Hansen discorre sobre no que consiste um livro, nos convidando a refletir sobre seus múltiplos significados. Um livro é um objeto artificial, material e simbólico, é mercadoria, produto acabado de vários processos intelectuais, técnicos e industriais. “Como objeto simbólico, é texto, que pressupõe uma autoria, que o acabou como obra, e leitores, que nunca acabam”. Ele discorre sobre aspectos como a hierarquização, a divisão em categorias temáticas e os livros como objetos de memória.

 Percorrendo esse fio da história do livro, Hansen passa por figuras como Homero, Ovídio, os irmãos Grimm, Borges e Padre Antônio Vieira, aborda questões como a censura e o controle, e as mudanças nos modos de ler trazidas pelas novas mídias. Relembra a origem dos livros, quando eram muito diferentes dos formatos que conhecemos hoje, e como os poemas de Homero, passados de forma oral de geração em geração, foram gravados em letras capitais do alfabeto grego, em grandes e desajeitados rolos de papiro.

 Reconstrói a Biblioteca de Alexandria, e explica como os textos clássicos da Grécia e de Roma Antiga foram preservados, copiados, comentados e editados até chegarem às versões que conhecemos atualmente, dos rolos aos códices de pergaminhos manuscritos e encadernados, aos livros impressos após a inovação de Gutemberg, no século XV. Conclui que um livro só existe quando é lido, colocando o leitor no mesmo nível de importância do autor, assim como a distância no tempo e no espaço, entre os dois.  Não por acaso, a maior parte do texto se dedica a essa instância, do leitor, da leitura e das multíplas interpreatações da obra, utilizando casos curiosos que ele presenciou como professor. Para Hansen, o leitor e como ele lê são parte fundamental do livro tanto quanto o papel, a tinta ou as ideias do autor.

 
Da argila à nuvem

                O segundo volume da Coleção Bibliofilia foi concebido para servir de introdução ao catálogo de uma exposição sobre a “arqueologia dos catálogos”, realizada em Paris e Genebra em 2015. O autor Yann Sordet sustenta que a lista catalográfica acompanha os textos desde a invenção da escrita, mostrando uma tábua de argila em escrita cuneiforme do período sumério, de mais de 2.000 anos antes de Cristo, que contém uma lista léxica. Boa parte de exemplos dessa que é considerada a mais antiga forma de escrita, na verdade, consiste em itens inventariados para fins administrativos, contábeis ou pedagógicos.

                 Sordet prossegue a uma minuciosa análise histórica dos catálogos, registros, inventários, índices, listas, etc., e dos bibliotecários, profissionais que diligentemente organizam esse universo de informação. Ressaltando que a divisão entre essas diversas categorias é muitas vezes artificial, ele explica em detalhes o significado de cada uma, e as escolhas por trás da hierarquização e ordenamento dos livros em uma biblioteca. Entre os catálogos que ele aborda, estão os “Pínakes de Calímaco”, 120 rolos que serviam como inventário, catálogo e repertório de tragédias e comédias representadas em Atenas nos séculos V e IV a.C. e reunidas na Biblioteca de Alexandria, que marcam o “nascimento da bibliografia”.

 O autor percorre o caminho dos catálogos das coleção de códices manuscritos guardados nas abadias da Idade Média, o impacto da invenção da imprensa de tipos móveis, a expansão das universidades e bibliotecas, o desenvolvimento do capitalismo e, por fim, a ubiquidade da tecnologia digital, quando os catálogos abandonam os suportes físicos e migram para a “nuvem”. O livro é ricamente ilustrado com fac-similes de alta resolução de alguns destes catálogos antigos, e rigorosamente referenciado nas legendas e notas de rodapé, o que certamente fará a alegria dos bibliotecários entusiastas da arte da catalogação bibliográfica, e também para os profissionais e interessados nas áreas de tipografia, produção gráfica e editoração.


A sabedoria do bibliotecário

Completando os três volumes da Coleção Bibliofilia, Marcel Melot presta uma homenagem à figura do bibliotecário, tão importante na conservação, organização de difusão do conhecimento. O texto, poético e carinhoso, afirma que o bibliotecário é sábio porque “sabe que jamais conseguirá abrir todos os livros” e que “o bibliotecário ama os livros como o marinheiro ama o mar”. Junto com a figura do bibliotecário, é homenageada a biblioteca, como espaço físico e instituição que fortalece laços sociais e comunitários.

 Melot afirma que, apesar da figura do bibliotecário existir antes do surgimento da Democracia, essa profissão é democrática por definição, pois pressupõe a convicção de que a verdade não pode existir senão partilhada e contingente. O bibliotecário é tolerante, pois vive da multiplicidade e diversidade de opiniões. Na impossibilidade de reunir todos os livros já publicados sob um mesmo teto, toda biblioteca é uma escolha, e o bibliotecário “é o primeiro autor de sua biblioteca”, responsável por sua composição, e deve exercê-la com curiosidade, tolerância e competência.

 Como bibliotecário de profissão e vocação, Melot descreve com paixão e autoridade as minúcias da atuação desse profissional, os dilemas e contradições do trabalho de arquivamento e classificação e a temida “morte” do bibliotecário enquanto guardião do conhecimento, num mundo em que este conhecimento está disponível e organizado por algoritmos nas redes digitais. Anedotas de sua própria experiência, desde estagiário até diretor de algumas das mais importantes bibliotecas francesas, pontuam a narrativa. A leitura se revela prazerosa não só para os bibliotecários de ofício como para todos os apaixonados pelo mundo dos livros.

 

Evento de lançamento

Bate-papo com Plínio Martins Filho, Marisa Midori e João Adolfo Hansen, seguido de sessão de autógrafos.

Data: 20 de março de 2020, sexta-feira, 19h30
Local: CPF - Centro de Pesquisa e Formação
Endereço: Rua Dr. Plínio Barreto, 285 - 4º andar, Bela Vista

 
Sobre os autores

 João Adolfo Hansen é docente aposentado da Universidade de São Paulo, crítico literário, pesquisador, ensaísta e historiador da literatura brasileira. Autor de A Sátira e o Engenho (2004), baseado em sua tese de doutorado, sobre o poeta Gergório de Matos e a Bahia do século XVIII.

 Yann Sordet é graduado em arquivística e paleografia pela École Nationale des Chartes-Paris, com uma tese sobre a história das práticas de bibliofilia no Século das Luzes, foi diretor do Departamento de Obras Raras da Biblioteca Sainte-Geneviève, e atualmente dirige a Biblioteca Mazarine, mais antiga biblioteca pública da França.

 Michel Melot dirigiu o Departamento de Estampas da Biblioteca Nacional da França e a Biblioteca Pública de Informação do Centro Georges Pompidou. Entre 1997 e 2003, presidiu o Conselho Superior das Bibliotecas Francesas. Atualmente, dedica-se à história da escrita.

Os títulos das Edições Sesc São Paulo podem ser adquiridos em todas as unidades do Sesc São Paulo, nas principais livrarias, em aplicativos como Apple Store e Google Play e também pelo portal www.sescsp.org.br/livraria
 

 

Comunidade Pitch Literário
Ler conteúdo completo
Indicados para você